Expor e publicar. A fotografia na parede e a fotografia no livro

Durante as férias de julho pude visitar algumas exposições fotográficas em Brasília. Foi um mês bastante movimentado nas galerias e outros espaços de exposição da cidade. Uma delas, no entanto, foi além do espaço expositivo e se transformou em um livro de fotografia ou fotolivro — como queiram. Trata-se do trabalho O Império do Meio, de Isabella Lyrio e Arthur Monteiro, dois conhecidos fotógrafos da cidade com um currículo respeitável no desenvolvimento de projetos de longa duração.

O Império do Meio é o resultado de uma imersão na cultura chinesa, em meses de viagens pelo país entre os anos de 2010 e 2012. Com uma proposta documental, o trabalho transita pelo cotidiano chinês em diversas regiões. O investimento no tempo e na imersão são perceptíveis. Não se trata de nem de um olhar de turista informado, nem se trata de um fotojornalismo exotizante.

A edição, por sua vez, valoriza muito claramente a tensão entre tradição e modernidade. Uma sociedade com hábitos, costumes, ritos e religiões milenares, desde meados do século 20, a China vem atravessando — como em muitas outras partes do mundo — ondas de uma modernização rápida e forçada, como num processo de colonialismo interno. A aceleração sem precedentes das últimas décadas de intensa industrialização tem remodelado e criado desafios às estruturas mais profundas da sociedade.

O termo “Império do meio” traduz a percepção etnocêntrica de muitas culturas de se considerarem o próprio centro do mundo. Ao mesmo tempo, ele também sugere a ideia de resistência e solidez. Pois nesse universo da centralidade, solidez e tradições milenares, Isabella Lyrio e Arthur Monteiro optaram por executar o trabalho utilizando-se de frágeis câmeras analógicas de plástico, com filmes, digamos, não muito nobres — a maior parte preto & branco — todos fabricados e vendidos na China. Do ponto de vista puramente formal, essa é uma das grandes qualidades do trabalho.

Mesmo quem não é exatamente um nostálgico do filme poderá perceber a beleza enigmática das imagens — por si só já bastante expressivas — em ampliações consideráveis para um trabalho analógico: a extensão da latitude do filme, a variedade dos tons de cinza, o baixo contraste e a atmosfera dreamy e dramática criada pelas lentes das câmeras baratas, e, sobretudo, a variedade do grão dos diferentes filmes. Para uma geração que cresceu sob o domínio do digital, colocar-se diante de tais fotografias intriga o olhar de quem aprendeu a ver o mundo através de imagens formadas por pixels.

O trabalho, portanto, tem um valor raro de se encontrar nesse tipo fotografia. E é bom saber que temos em Brasília fotógrafos com tamanho comprometimento com a execução de projetos dessa natureza, que exigem um grande esforço tanto na elaboração conceitual quanto nas tarefas mais árduas da produção e pós-produção.

O formato expositivo, no entanto, embora elegante e funcional, reproduz o modelo museológico de exposição. As fotografias encontram-se organizadas de forma sequencial na altura do olho do expectador, que pode percorrer as imagens sem nenhum esforço. Embora a proposta seja de caráter documental, há hoje alternativas mais interessantes de colocar o trabalho a disposição do público, formas expositivas alternativas que dinamizam e desafiam a relação do expectador com a obra, ajudando a romper a monotonia sequencial do modelo museológico clássico. Variar na dimensão das obras, assim como agrupá-las em diferentes conjuntos, usar a superfície do próprio espaço expositivo como uma tela para criar uma tensão com as expectativas muitas vezes já predeterminadas dos visitantes pode ajudar a adicionar mais uma camada de significação a obra, e valorizar a relação com o público.

“O Império do Meio”, de Isabella Lyrio e Arthur Monteiro. Editora Esferográfica.O livro, por sua vez, apresenta também as mesmas qualidades da exposição. É uma edição bastante bem cuidada e sólida. É um livro de capa dura, cinza, elegante, com o título em mandarim em alto relevo, bastante diferente do estilo fanzine-ish que se tornou popular.O miolo com dois tipos diferentes de papel de 150 g/m2 e algumas páginas duplas misturam de maneira bem articulada as poucas fotografias coloridas em meio ao trabalho predominantemente em preto e branco. O livro traz ainda três pequenos textos em português, mandarim e inglês que ajudam a contextualizar o leitor. Do ponto de vista gráfico, ele não deixa nada a desejar a trabalhos produzidos em São Paulo ou Rio de Janeiro, estados com um parque gráfico mais desenvolvido. A narrativa proposta pelo livro, também segue o itinerário da relação entre o moderno e o tradicional. Mas aqui ele é aprofundado em mais de 130 páginas, com aproximadamente 115 imagens, tematizando com extensão diversas dimensões dessa questão.

Obviamente não há um número pré-determinado ou ideal de imagens para um fotolivro, cada projeto tem suas peculiaridades. Mas nesse caso, um número menor de fotografias, com uma edição mais austera, pudesse ter ajudado dosar o ritmo das imagens. Como há um volume respeitável de imagens, dispostas praticamente sem nenhum respiro, com pouquíssimo espaço negativo — parte dele ocupado por legendas em mandarim e português — a experiência de tentar acompanhar a sequência visual se torna um tanto atropelada pela proximidade das imagem. Uma página em branco é um recurso valioso para ajudar a dosar o ritmo da leitura e proporcionar algum espaço para absorver e assimilar aquilo que é visto.

O livro tem obviamente um valor inquestionável, mas há alguns aspectos muito ambíguos que indicam um problema na definição de uma concepção mais clara sobre a natureza do próprio projeto. Embora o trabalho tenha um caráter documental e narrativo, as escolhas editoriais sugerem que estamos diante de um fotolivro, um trabalho que tenta ser algo mais que uma obra puramente fotojornalística. Contudo, quando abrimos o livro e nos concentramos em sua estrutura interna percebe-se o oposto. O livro tem uma excessiva preocupação informativa, como um trabalho fotojornalistico convencional. O calcanhar de Aquiles do livro me parece ser a opção pelo uso de legendas, e de legendas em absolutamente todas as imagens, muitas delas disputando espaço e concorrendo com as próprias imagens.


As legendas conflitam com o processo de leitura das imagens e acabam, também, disputando espaço nas páginas.

Muito já se discutiu sobre qual o papel, a relevância ou a adequação da presença do texto no fotolivro. Há uma posição, que eu qualificaria de extrema, que defende que o fotolivro não necessita de texto algum. Particularmente, acredito que essa é uma possibilidade que funcione em certos casos, mas certamente não pode ser uma lei. Há casos muito bem sucedidos de fotolivros sem texto e com texto. Eu acredito que algum texto sempre ajuda. E que eles devem ser publicados, na maioria dos casos, ou na parte inicial ou final do livro, não interferindo no corpo principal de imagens. O caso paradigmático de um trabalho documental bem sucedido em conciliar texto e imagem talvez seja o de Redheaded Peckerwood, de Christian Patterson, publicado em 2013 pela editora Mack. Não há texto no corpo do livro que não seja ele próprio um elemento imagético — como fotografias de cartas e bilhetes, e alguns letreiros na parede. Muito já se discutiu sobre qual o papel, a relevância ou a adequação da presença do texto no fotolivro. Há uma posição, que eu qualificaria de extrema, que defende que o fotolivro não necessita de texto algum. Particularmente, acredito que essa é uma possibilidade que funcione em certos casos, mas certamente não pode ser uma lei. Há casos muito bem sucedidos de fotolivros sem texto e com texto. Eu acredito que algum texto sempre ajuda. E que eles devem ser publicados, na maioria dos casos, ou na parte inicial ou final do livro, não interferindo no corpo principal de imagens.


O caso paradigmático de um trabalho documental bem sucedido em conciliar texto e imagem talvez seja o de Redheaded Peckerwood, de Christian Patterson, publicado em 2013 pela editora Mack. Não há texto no corpo do livro que não seja ele próprio um elemento imagético — como fotografias de cartas e bilhetes, e alguns letreiros na parede.



“Redheaded Peckerwood” e a separata com informações sobre o evento que deu origem ao trabalho.

Nesse sentido, o problema fundamental de O Império do Meio é justamente a ênfase que é dada a informação. As legendas aparecem no corpo do livro como um excesso, como um elemento disruptivo da coerência do projeto e perturbador da leitura da narrativa visual. A parte de mim que quer fruir da narrativa visual, que quer viajar na força expressiva das imagens raras e preciosas é a todo momento perturbada pela parte de mim que é forçada a voltar para o texto, para a mensagem literal, referencial, explicativa e, muitas vezes, redutora da escrita descritiva. A legenda desvia meu olhar como numa pulsão escópica, e de alguma forma me obriga a entrar na dimensão da palavra quando, na verdade, a pura narrativa visual talvez fosse mais rica, compensadora e sensibilizadora.


Um livro clássico e antigo como o The Americans, que usa legendas, inclusive nas versões mais recentes da Steild, faz um grande sacrifício para que elas possam caber no trabalho. As legendas, de dimensões mínimas, dispostas no canto inferior da página, em tipo neutro têm geralmente apenas a indicação do local ou evento fotografado e da cidade: “Candy store — New York City”, “Bar — Detroit”, “Cafe — Beaufort, South Carolina” ou ainda “Funeral — St. Helena, South Carolina”.


No entanto, para que as legendas funcionem sem capturar completamente o leitor, paga-se um preço muito alto: as legendas demandam o espaço negativo de uma página inteira. Há apenas uma foto a cada duas páginas, e a imagem aparece completamente apartada, deliberadamente distanciada das legendas.


“Fourth of July — Jay, New York.” — Robert Frank, “The Americans”.

Separata com legendas do livro “Êxodos”, de Sebastião Salgado.

Mesmo nos livros mais convencionais de um fotojornalista como Sebastião Salgado, que sempre se colocou e reivindicou o título de fotojornalista, as legendas também não entram no corpo da narrativa visual. Em Os Trabalhadores e Êxodos as legendas e o texto explicativo aparecem na forma de uma separata, absolutamente distantes da narrativa visual, que se apresenta ao leitor em sua integridade, complexidade e riqueza sem a intervenção da palavra escrita e de suas vicissitudes.


As qualidades do trabalho de Isabella Lyrio e Arthur Monteiro são muito superiores às observações feitas aqui. A experiência do deslocamento, o mergulho na cultura chinesa, a produção de um trabalho original, complexo e o impacto que esse conjunto de processos tem no expectador são os seus aspectos mais relevantes e admiráveis. Com as ressalvas aqui feitas, eu recomendaria fortemente tanto a visita a exposição, quanto a aquisição do livro. Essas são, aliás, duas ferramentas poderosas de proporcionar uma experiência fotográfica autêntica para fotógrafos e não fotógrafos; são ferramentas importantes que permitem o trabalho fotográfico afetar pessoas estão dentro e além dos muros da comunidade de fotógrafos.

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