O momento de xingar Bolsonaro já passou


Ilustração: Sérgio Aquindo Instagram: @sergioaquindo

Faço abaixo algumas afirmações que podem ser vistas como polêmicas sobre o Bolsonarismo, mas que creio serem sustáveis hoje: 1. O Bolsonarismo não é um fenômeno de brancos. Ele é branco apenas na medida em que todo projeto político hegemônico o é. Mas há adesão e defesa do Bolsonarismo entre não-brancos nas periferias, nas igrejas, e em regiões do centro-oeste e norte do país que estão longe de serem majoritariamente brancas. 2. O Bolsonarismo não é simplesmente masculino. Ele é masculino em sua orientação filosófica patriarcal, mas não é masculino na sua base de apoio. A noção de ordem e a moralidade do patriarcalismo podem ser bastante atrativas para pessoas de todos os gêneros e classes que se veem ameaçadas pelo caos da desagregação social causadas pela violência e pelas incertezas e inseguranças promovidas pela economia-moral do neoliberal. É certo que o Bolsonarismo tem maior reprovação entre mulheres que entre os homens, mas ainda assim ele consegue grande adesão nessa população. E podemos ver isso também na atuação politica das mulheres Bolsonaristas no congresso, nas câmaras estaduais e municipais, nas redes sociais e nas ruas. A presença delas é notável e expressiva. 3. O Bolsonarimos não é um movimento político de homens brancos ricos. Quem pensa dessa maneira não deve parar de se surpreender com o que vê na vida cotidiana: mulheres, pobres, gays, negros apoiando o governo e indo às últimas consequências em sua defesa. E isso acontece porque dentro da tempestade de fúria que é o Bolsonarismo há legítimas queixas, há um ressentimento legítimo, há uma legítima revolta contra problemas estruturais da nossa democracia disfuncional que afeta pessoas de todas raças, de todos os gêneros, incluindo ou especialmente os mais pobres e vulneráveis. Essas deficiências e problemas estruturais foram ignorados, desprezados, minimizados tanto pela direita quanto pela esquerda que chegou ao poder. Creio que é preciso entender que em meio a toda mentira e hipérbole que são constitutivas do Bolsonarismo há fragmento concretos de uma verdade que estamos nos recusando a reconhecer. Minha posição, portanto, é de que ao invés de ficarmos alimentando as ilusões e os clichés que vem do liberalismo multicultural dos anos de 1990 (coisa que muitos confundem com a agenda da esquerda), tentemos compreender e dar respostas concretas às queixas e aos ressentimentos que proporcionaram adesão popular suficiente para levar o atual bloco ideológico ao poder poder. Chegamos a um ponto em que palavras mágicas não dão conta de mudar a situação vigente de crescente apoio a Bolsonaro. O "não vai ter Copa" não impediu a Copa. O "não vai ter Golpe" foi talvez ainda mais patético. O "Ele não", deu no que deu. Parece-me claro que o esse pensamento mágico não funciona mais, se é que algum dia funcionou. Precisamos de um projeto que ofereça alternativas às demandas reais da sociedade. E alternativas que pareçam melhores que aquelas oferecidas pelo Bolsonarismo. Essas alternativas, no entanto, precisam responder a demandas que vão além das necessidades econômicas. Elas precisam lidar com dimensão propriamente psico-política da realidade social na qual estamos imersos hoje. Precisamos de um projeto político que dialogue com as noções ordem, de segurança, de esperança, e com as ansiedades e angústias que nos afligem. O que podíamos ganhar xingando Bolsonaro já foi obtido. Agora é o momento mudar o nível do jogo


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